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quarta-feira, 31 de julho de 2013

O SANTO ARCANJO GABRIEL ANUNCIOU A CONCEPÇÃO DE MARIA SANTÍSSIMA. SANT'ANA FOI PARA ISSO PREPARADA POR DEUS, COM ESPECIAL GRAÇA.


Primeiro Livro - Capítulo 13 – Primeiro Tomo da Mística cidade de Deus 




CAPITULO 13 
O SANTO ARCANJO GABRIEL ANUNCIOU A CONCEPÇÃO DE MARIA SANTÍSSIMA. SANT'ANA FOI PARA ISSO PREPARADA POR DEUS, COM ESPECIAL GRAÇA.

Os princípios da Redençã
o

178. Os rogos dos santos Joaquim e Ana chegaram à presença e trono da beatíssima Trindade, sendo aceitos. Foi manifestada aos santos anjos a vontade divina, como se - a nosso modo de entender - as três pessoas divinas assim lhes falassem: - Por nossa dignarão determinamos que a pessoa do Verbo assuma a natureza humana, e que nela repare a linhagem dos mortais. A nossos servos e profetas assim revelamos e prometemos para que eles o anunciassem ao mundo. Os pecados dos viventes e sua malícia é tanta que nos obriga a executar o rigor de nossa justiça. Nossa bondade e misericórdia, porém, excede a todas as suas maldades que não podem extinguir nossa caridade. - Consideremos as obras de nossas mãos, que criamos à nossa imagem e semelhança, para serem herdeiros e participantes de nossa eterna glória (l Pd 3,22). Atendamos aos serviços e agrados de nossos servos e amigos e aos muitos que hão de existir, grandes em nosso louvor e complacência. Ponhamos ante nossos olhos especialmente aquela que será nossa eleita entre milhares, agradável acima de todas as criaturas, destinada para nossa delícia e beneplácito e que em suas entranhas há de receber a pessoa do Verbo, para vesti-lo da mortalidade da natureza humana. Já que se deverá começar esta obra, pela qual manifestaremos ao mundo os tesouros de nossa Divindade, agora é o tempo aceitável e oportuno para a realização deste mistério. - Joaquim e Ana encontraram graça a nossos olhos, porque piedosamente os prevenimos com a virtude de nossos dons e graças. Ao provarmos sua perfeição foram fiéis e suas almas puras e singelas tornaram-se agradáveis e aceitas em nossa presença. - Ide, Gabriel, nosso embaixador, anunciar-lhes notícias de alegria, para eles e para toda a estirpe humana, e participai- lhes como nossa dignarão os contemplou e escolheu.

São Gabriel anuncia a conceição de Maria


179. Conheceram os espíritos celestiais esta vontade e decreto do Altíssimo. O santo arcanjo Gabriel adorou
e reverenciou Sua Alteza, na forma como fazem aquela puríssimas e espirituais substâncias, humilhado ante o trono da beatíssima Trindade, do qual saiu uma voz intelectual que lhe disse: - Gabriel, esclarece, reanima e consola Joaquim e Ana, nossos servos, e dize-lhes que suas orações chegaram a nossa presença e seus rogos foram ouvidos por nossa clemência. Promete-lhes que receberão descendência com a graça de nossa destra, e que Ana conceberá e dará à luz uma filha a quem damos o nome de Maria.

Embaixada de São Gabriel

180. Com esta ordem, foram revelados ao arcanjo São Gabriel muitos mistérios dos que pertenciam a esta embaixada. Imediatamente desceu do céu empíreo e apareceu a São Joaquim que estava em oração, e lhe disse: - Homem justo e reto, o Altíssimo, de seu trono viu teus anseios, ouviu tuas súplicas e gemidos e torna-te feliz na terra. Tua esposa Ana conceberá e dará à luz uma filha que será bendita entre as mulheres (Le 1, 42-48) e as nações chamá-la-ão bem-aventurada. Aquele que é Deus eterno, incriado e criador de tudo, retíssimo em seus juízos, poderoso e forte, envia-me a ti, porque lhe foram aceitas tuas obras e esmolas. A caridade comove o coração do Todo-poderoso e apressa suas misericórdias. Quer liberalmente enriquecer tua casa e família com a filha que Ana conceberá, e a quem o mesmo Senhor dá o nome de Maria. Desde sua infância lhe deverá ser consagrada no templo, conforme lhe haveis prometido. Essa filha, na vida e obras, será prodigiosa, grande, escolhida, poderosa, cheia do Espírito Santo, e pela esterilidade de Ana, milagrosamente concebida. Louva, Joaquim, ao Senhor por

este benefício, glorifica-o, pois com nenhuma outra nação fez tal coisa. Irás dar graças no templo de Jerusalém, e em prova de que te anuncio esta alegre e verdadeira notícia, encontrarás na porta Áurea tua irmã Ana que pelo mesmo motivo irá ao templo. Advirto-te que esta embaixada é maravilhosa, porque a concepção desta Menina alegrará o céu e a terra.

São Joaquim recebe a mensagem do Anjo

181. Tudo isto aconteceu a S. Joaquim durante o sono que lhe sobreveio numa longa oração. Nele recebeu a embai¬xada, do mesmo modo como depois foi revelado a São José, esposo de Maria Santíssima, ser a gravidez de sua esposa obra do Espírito Santo (Mt 1, 20). Despertou o ditosíssimo São Joaquim com especial júbilo na alma, e com discreta prudência ocultou em seu coração o segredo do Rei (Tb 12,7). Com viva fé e esperança derramou seu espírito na pre¬sença do Altíssimo, e repleto de ternura e gratidão, deu-lhes graças e louvou seus inescrutáveis juízos. Para melhor fazê-lo foi ao templo, segundo lhe fora ordenado.
Oração de Sant'Ana 182. Na mesma hora em que isto sucedeu a São Joaquim, encontrava-se a ditosa Sant'Ana em altíssima oração e contemplação. Estava toda elevada no Senhor e no esperado mistério da Encarnação do Verbo eterno, do qual o mesmo Senhor lhe dera altíssimas inteligências e especialíssima luz infusa. Com profunda humildade e viva fé, pedia a sua Majestade apressar a vinda do Redentor do gênero humano, fazendo
esta oração: Altíssimo Rei e Senhor de toda a criação, eu vil e desprezível criatura, porém obra de vossas mãos, desejara, dando a vida que de Vós recebi, obrigar vossa dignarão a abreviar o tempo de nossa salvação! Oh! se vossa infinita piedade se inclinasse para nossa necessidade! Oh! se nossos olhos já pudessem ver o Reparador e Redentor dos homens! Lembrai-vos, Senhor, das antigas misericórdias que fizestes a vosso povo prometendo-lhe vosso Unigênito, e obrigue-vos a determinação de vossa infinita piedade. Chegue já este dia tão desejado! É possível que o Altíssimo desça de seu santo céu? É possível que tenha Mãe na terra? Que mulher será tão feliz e bem-aventurada? Oh! quem pudera vê-la! Quem fora digna de servir às suas servas! Bem-aventuradas as gerações que a virem podendo prostrar-se a seus pés para venerá-la! Que deliciosa será sua vista e conversação! Felizes os olhos que a virem, os ouvidos que ouvirem suas palavras, e a família escolhida pelo Altíssimo para nela ter sua Mãe! Execute-se já, Senhor, este decreto, cumpra-se já vosso divino beneplácito.

Semelhanças entre a anunciação da concepção de Maria e a de Cristo

183. Nesta oração e colóquios estava ocupada Sant'Ana, depois das inteligências que recebera sobre este inefável mistério. Conferia suas reflexões com o seu anjo da guarda que, muitas vezes por esse tempo, se lhe manifestou com mais clareza. Dispôs o Altíssimo que a embai¬xada da concepção de sua Mãe Santíssima, fosse de algum modo semelhante a que mandaria mais tarde para sua inefável Encarnação. Sant'Ana estava meditando, com
humilde fervor, naquela que deveria ser a mãe da Mãe do Verbo encarnado, e a Virgem Santíssima fazia os mesmos atos para a que havia de ser Mãe de Deus, como em seu lugar direi As duas embaixadas foram desempenhadas pelo mesmo anjo, em forma humana, ainda que com mais bela e misteriosa figura à Virgem Maria.

Mensagem de São Gabriel à Sant’Ana

184. Mais formoso e refulgente que o sol, entrou o santo arcanjo Gabriel à presença de Sant'Ana e disse-lhe: - Ana, serva do Altíssimo, sou anjo do conselho de sua Alteza, enviado das alturas por sua divina dignarão que olha aos humildes na terra (SI 137,6). Boa é a oração incessante e a confiança humilde. O Senhor ouviu tuas súplicas, porque está perto (SI 144, 18) dos que o chamam com viva fé e esperança, aguardando com resignação serem atendidos. Se adia o cumprimento de seus clamores, e se tarda em conceder as petições dos justos, é para melhor prepará-los e obrigar-se a lhes dar muito mais do que pedem e desejam. A oração e a esmola abrem os tesouros do Rei onipotente (Tb 11,8-9) e o inclinam a ser rico em misericórdias com os que o rogam. Tu e Joaquim pedistes descendência e o Altíssimo determinou dar-vos admirável e santa, e por ela enriquecer-vos de dons celestiais, concedendo-vos muito mais do que Lhe pedistes. Porque vos humilhastes em pedir, o Senhor quer glorificar-se atendendo vossas súplicas. A criatura lhe é muito agradável quando roga humilde e confiante, não limitando seu poder infinito. Persevera na oração e pede sem cessar a salvação da linhagem humana,
para inclinar o Altíssimo. Moisés, com oração contínua, alcançou vitória do povo (Êx 17,11). Ester com oração e confiança obteve libertação da morte (Est 4, 11). Judite pela mesma oração foi destemida em ação tão difícil (Jd 9,1; 13,6) como a que executou para defender Israel, apesar de ser débil mulher. Davi (IRs 17, 45) saiu vitorioso contra Golias, porque orou invocando o nome do Senhor (3Rs 18, 36). Elias obteve fogo do céu para seu sacrifício, e com a oração abria e fechava os céus. - A humildade, a fé e as esmolas de Joaquim e as tuas chegaram ao trono do Altíssimo, e Ele enviou-me, seu anjo, para te dar alegres notícias para teu espírito. Quer sua Alteza que sejas ditosa e bem- aventurada e escolhe-te para mãe daquela que há de conceber e dar à luz o Unigênito do Pai. Terás uma filha que por divina ordenação se chamará Maria. Será bendita entre as mulheres, cheia do Espírito Santo (3Rs 18, 44), a nuvem que derramará o rocio do céu para refrigério dos mortais, e nela se cumprirão as profecias de vossos antigos pais. Será a porta da vida e a salvação dos filhos de Adão. - Adverte que, revelando a Joaquim que terá uma filha ditosa e bendita, o Senhor reservou o mistério, não lhe manifestando que será Mãe do Messias. Por isto deves guardar este segredo. Irás logo ao templo dar graças ao Altíssimo por que tão liberalmente te favoreceu com sua poderosa destra, e na porta Áurea encontrarás Joaquim com quem conferirás estas mensagens. - A ti, bendita do Senhor, quer sua grandeza ainda visitar e enriquecer com seus mais singulares favores. Na soledade te falará ao coração (Os 2,14) e dará origem à lei da graça, formando em teu seio àquela que há de vestir de carne mortal ao imortal Senhor, dando-lhe forma humana. Com o sangue desta humanidade unida ao Verbo,
será escrita a verdadeira lei de misericórdia (Hb9,ll).

Alegria de São Joaquim e Sant'ana


185. Para que o humilde coração de Sant'Ana não desfalecesse com a admiração e júbilo produzidos por esta embaixada do santo anjo, foi confortada pelo Espírito Santo. Assim, a ouviu e recebeu com grandeza de ânimo e incomparável alegria. Dirigiu-se logo ao templo de Jerusalém onde encontrou S. Joaquim, como o anjo havia dito. Juntos deram graças ao Autor desta maravilha, oferecendo especiais dons e sacrifícios. Novamente iluminados pela graça do divino Espírito, e cheios de consolação divina, voltaram para casa. Iam falando sobre os favores que haviam recebido do Altíssimo e como o santo arcanjo Gabriel se comunicara com cada um em particular, prometendo-lhes da parte do Senhor uma filha que seria muito ditosa e bem-aventurada.
Nesta ocasião revelaram um ao outro como antes de tomarem estado de matrimônio, o mesmo santo anjo por ordem de Deus lhes mandara que se unissem e juntos servissem a Deus. Haviam guardado este segredo durante vinte anos, sem o revelar mutuamente, até que o mesmo anjo lhes prometeu o nascimento da filha. Fizeram novamente voto de oferecê-la ao templo, e que todos os anos naquele dia, ali iriam passá-lo em louvores e ações de graças, oferecendo especiais sacrifícios e esmolas. Assim o cumpriram depois, com grandes cânticos de louvores ao Altíssimo. 186. Nunca revelou a prudente matrona, quer a São Joaquim, quer a qualquer outra criatura, que sua filha seria a Mãe do Messias. Durante toda a sua vida, o santo progenitor soube apenas que ela seria grande e misteriosa mulher. Nos últimos instantes antes de sua morte, porém, o Altíssimo lho revelou, como direi em seu (12) lugar Grande inteligência me foi dada sobre as virtudes e santidade dos pais da Rainha do céu. A fim de chegar ao assunto principal não me demoro mais em falar sobre o que todos os fiéis devem supor.

Revelação a Sant’ana

187. Depois da primeira concepção do corpo da Mãe da graça, e antes de criar sua alma santíssima, Deus concedeu singular favor a Sant'Ana. Por modo altíssimo e intelectual, teve uma visão de Sua Majestade, dele recebendo grandes inteligências e graças, para prepará-la com graças especiais (SI 20, 4). Purificou-a, espiritualizou-a e elevou sua alma e espírito de tal modo que, desde aquele dia, nenhuma coisa humana a impediu de permanecer na presença de Deus com todo o
afeto de sua mente e vontade. Disse-lhe o Senhor nesta ocasião: - Ana, minha serva, Eu sou o Deus de Abraão, Isaac e Jacó; esteja contigo minha luz e bênção eterna. Criei o homem para elevá-lo do pó e fazê-lo herdeiro de minha glória e participante de minha divindade. Ainda que nele coloquei muitos dons, dando-lhe lugar e estado muito perfeito, ele tudo perdeu por dar ouvidos à serpente. Só por minha vontade, esquecendo sua ingratidão quero reparar seus males, cumprir o que a meus servos e profetas prometi, e enviar-lhes meu unigênito e seu Redentor. Os céus estão fechados, os antigos pais aprisionados, impedidos de ver a minha face e gozar o prêmio de minha eterna glória. Deste modo, a propensão de minha infinita bondade está como coagida por não se comunicar ao gênero humano. Quero já usar com ele de minha liberal misericórdia, e dar-lhe a pessoa do eterno Verbo para fazer-se homem, nascendo de mulher que seja mãe e virgem imaculada, pura, bendita e santa sobre todas as criaturas. Desta minha eleita {Ct 6,8) e única faço-te mãe.

Resposta de Sant’ana

188. Os efeitos que estas palavras produziram no cândido coração de Sant'Ana, não os posso facilmente explicar. Foi a primeira dos mortais a quem se revelou o mistério de que sua filha santíssima seria Mãe de Deus, e de seu seio nasceria a eleita para realizar o maior mistério do poder divino. Convinha que assim ela o conhecesse, pois a haveria de dar à luz e criar, e deveria saber estimar o tesouro que possuía. Ouviu com profunda humildade a voz do Altíssimo, e com submisso coração
respondeu: - Senhor, Deus eterno, é próprio de vossa imensa bondade, e obra de vosso poderoso braço elevar do pó a quem é pobre e desprezado (SI 112,7). Reconheço-me, altíssimo Senhor, indigna de tais misericórdias e benefícios. Que fará este vil bichinho em vossa presença? Somente posso oferecer, em agradecimento, vosso mesmo ser e grandeza, e em sacrifício, minha alma e potências. Disponde de mim, Senhor, à vossa vontade, pois a ela me entrego inteiramente. Eu quisera ser tão dignamente vossa, como exige esta graça; mas que farei, pois não mereço ser escrava daquela que será Mãe de vosso Unigênito e minha filha? Assim o reconheço e confessarei sempre. Entretanto, aos pés de vossa grandeza, espero que useis comigo de vossa misericórdia, pois sois Pai piedoso e Deus onipotente. Tomai-me, Senhor, como me desejais, de acordo com a dignidade que me dais. 189. Esta visão foi recebida por Sant'Ana num maravilhoso êxtase, no qual lhe foram concedidas altíssimas inteligências das leis natural, escrita e evangélica. Conheceu como a divina natureza do Verbo eterno se uniria à nossa, e como a humanidade santíssima seria elevada ao ser de Deus, e outros muitos mistérios dos que seriam realizados na encarnação do Verbo divino. Com estas ilustrações e outros divinos dons
de graça, o Altíssimo a preparou para a concepção e a criação da alma de sua filha santíssima e Mãe de Deus.
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LIVRO MÍSTICA CIDADE DE DEUS , 1º TOMO.
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sábado, 24 de dezembro de 2011

MEDITAÇÃO PARA O NATAL




CAPITULO 10 DO QUARTO LIVRO DO SEGUNDO TOMO
DO LIVRO MÍSTICA CIDADE DE DEUS
A REVELAÇÃO DA VIDA DE MARIA SANTÍSSIMA
A SOROR MARIA DE ÁGREDA
CAPITULO 10

CRISTO NASCE DA VIRGEM MARIA EM BELÉM DA JUDÉIA.

A gruta* primeiro templo de Cristo na terra
468. 0 palácio que o supremo Rei dos reis e Senhor dos senhores tinha preparado para
hospedar no mundo seu eterno Filho feito homem, para o bem dos homens, era a mais pobre
e humilde choupana ou gruta. Ali Maria e José se retiraram, despedidos das hospedadas e
da natural piedade dos mesmos homens, como ficou descrito no capítulo passado.
Era este lugar tão desprezível que, estando a cidade de Belém repleta de forasteiros e
com insuficiente alojamento, ninguém se dignou procurá-lo e muito menos nele se abrigar.
Realmente, ele só convinha e ficava bem aos mestres da humildade e pobreza. Cristo, nosso
bem, e sua Mãe puríssima. Através dos acontecimentos, reservou-o para Eles a sabedoria do


eterno Pai. Ornado com a desnudez, solidão e pobreza, consagrou-o primeiro templo da luz
(Mal 4,2; SI 111, 4) e casa do verdadeiro sol de justiça. Para os retos de coração, nasceria da
cândida aurora Maria, no meio das trevas da noite, símbolo das do pecado que cobriam o
mundo todo.


Maria e José agradecem a Deus


469. Entraram Maria Ssma, e José neste alojamento. Com o resplendor dos dez mil anjos
que os acompanhavam pu deram facilmente ver que era pobre e desocupado, como o
desejavam.
Com grande consolação e lágrimas de alegria, os dois santos Peregrinos ajoelharam-se
louvando o Senhor e dando-lhe graças por aquele benefício que, não ignoravam, era
disposto pelos ocultos desígnios da eterna Sabedoria.
Este grande mistério foi mais compreendido pela divina princesa Maria, pois ao
santificar com seus pés aquela felicíssima choupanazinha, sentiu grande júbilo interior que
a elevou e vivificou toda.
Pediu ao Senhor recompensasse generosamente a todos os moradores da cidade que,
despedindo-a de suas casas, lhe proporcionaram tanto bem como naquela humilde cabana
a esperava.
Era formada de pedras naturais e toscas sem nenhum acabamento, de tal modo que
os homens julgaram-na conveniente apenas para estábulo de animais. O eterno Pai,
entretanto, a destinara para abrigo e morada de seu próprio Filho.


Os anjos montam guarda real


470. Os espíritos angélicos que guardavam sua Rainha e Senhora, ordenaram-se na
forma de esquadrões, como fazendo guarda ao palácio real. Na forma corpórea e humana
em que vinham, eram vistos também pelo santo esposo José. Era conveniente que, naquela
ocasião, para aliviar sua pena ele gozasse desse favor,
vendo tão adornado e aformoseado com as riquezas do céu aquele pobre alojamento. Além
de se consolar, seu coração devia ser elevado para os acontecimentos que o Senhor preparara
para aquela noite, em tão abjeto lugar.
A grande Rainha e Imperatriz do céu, já informada do mistério que se realizaria,
resolveu limpar com suas próprias mãos aquela gruta, que logo serviria de trono real e
sagrado propiciatório. Queria que não faltasse a Ela aquele exercício de humildade, e nem a
seu Filho unigênito o culto e reverência que, em tal ocasião, era possível oferecer-lhe como
adorno de seu templo.


Maria, José e os anjos limpam a gruta


471.0 santo esposo José, atento à majestade de sua divina Esposa, e que Ela parecia
esquecer por amor da humildade, suplicou-lhe não se encarregasse daquele ofício que a ele
pertencia. Adiantando-se, começou a limpar o chão e os cantos da gruta, ainda que nem por


isso deixou de o acompanhar a humilde Senhora.
Estando os santos anjos em forma humana visível, pareceu, a nosso modo de entender,
que ficaram envergonhados de não participar naquela tão devota porfia de humildade-
Imediatamente, em santa competição, ajudaram, ou para melhor dizer, em brevíssimo tempo
limparam toda a gruta, deixando-a em ordem e cheia de fragrância.
São José acendeu fogo com o dispositivo que para isso trazia, e porque estava muito
frio, aproximaram-se dele para se aquecer um pouco.
Com incomparável alegria espiritual cearam do pobre farnel que levavam. A Rainha
do céu e terra nada teria comido, se não fosse para obedecer a São José, pois aproximando-
se o divino parto, achava-se toda absorta no mistério.


Êxtase de São José


472. Depois de comer deram graças ao Senhor, como costumavam, e ficaram por
momentos conversando sobre os mistérios do Verbo encarnado.
Sentindo a prudentíssima Virgem que se aproximava o feliz nascimento, rogou a seu
esposo José que se recolhesse para dormir e descansar um pouco, pois a noite já ia bastante
adiantada. Obedeceu o santo homem à sua Esposa, pedindo-lhe que fizesse o mesmo. Para
tanto, com as roupas que traziam, arrumou a manje-doura bastante ampla que se
encontrava no chão da gruta e servia aos animais que lá se recolhiam.
Deixando Maria Ssma. acomodada nesse leito, retirou-se São José para um canto da
choupana, onde se pôs em oração. Foi logo visitado pelo divino Espírito e arrebatado por
uma força extraordinária e suavíssima. Elevado em altíssimo êxtase, foi-lhe mostrado tudo
o que, naquela noite, aconteceu na ditosa gruta, e só voltou a seus sentidos quando o
chamou a divina Esposa. Este foi o sono de São José ali na gruta, mais sublime e feliz do que
o de Adão no paraíso (Gen 2,21).


Êxtase de Maria santíssima


473. No lugar onde se encontrava foi a Rainha das criaturas movida por intensa
atração do Altíssimo, com eficaz e doce transformação, que a elevou acima de toda a
criação. Sentindo novos efeitos do poder divino, entrou num dos êxtases mais raros e
admiráveis de sua vida santíssima. Gradualmente foi sendo elevada pelo Altíssimo, com as
luzes e disposições, que noutras ocasiões descrevi, para chegar à clara visão da divindade.
Assim preparada, se lhe correu a cortina e viu intuitivamente o próprio Deus, com
tanta glória e plenitude de ciência, que todo o entendimento angélico e humano não o pode
explicar nem adequadamente compreender.
Foi-lhe renovada a notícia dos mistérios da divindade e humanidade santíssima de
seu Filho, que recebera em outras visões, e novamente lhe foram manifestados outros
segredos encerrados no inexausto arquivo do peito divino.
Não tenho suficientes e adequados termos para manifestar o que destes sacramentos
conheci na luz divina. Sua abundância e riqueza me tomam pobre de razões.


Precedentes do nascimento de Cristo


474. Declarou o Altíssimo à sua Virgem Mãe que chegara o momento de deixar seu

virginal seio e aparecer no mundo, e o modo como isso seria realizado.
Conheceu a prudentíssima Senhora nesta visão, as razões e fins altíssimos de tão


admiráveis obras, tanto da parte do Senhor, como do que se referia às criaturas, para as quais
se ordenavam.
Prostrou-se ante o trono real da divindade, dando-lhe a glória, a magnificência, a ação
de graças e louvores, que Ela e todas as criaturas deviam a Deus, por misericórdia e
dignação tão inefáveis de seu imenso amor.
Ao mesmo tempo, pediu nova luz e graça para dignamente servir e educar o Verbo
humanado que receberia nos braços e alimentaria com seu virginal leite.
Fez a divina Mãe esta súplica com profundíssima humildade, como quem entendia a
grandeza de tão novo sacramento: criar e tratar como mãe a Deus feito homem. Julgava-se
indigna de tal ofício, para cujo cumprimento seriam insuficientes os supremos serafins.
Prudente e humildemente o pensava e pesava a Mãe da Sabedoria (Ecli 24» 24): e
porque se humilhou até o pó (Lc 1, 48) e se aniquilou na presença do Altíssimo, foi por Ele
elevada e confirmada no título de Mãe sua.
Ordenou-lhe que, como legítima e verdadeira Mãe, exercitasse esse ofício e
ministério; que o tratasse como a Filho do eterno Pai e juntamente Filho de suas entranhas.
Tudo isto pôde ser confiado a tal Mãe. Mais, não posso explicar com palavras.


Nascimento de Cristo


475. Esteve Maria santíssima neste rapto e visão beatífica mais de uma hora imediata a seu
divino parto. Ao mesmo tempo que dele voltava percebeu e viu que o corpo do Menino Deus
movia-se em seu virginal seio, para deixar aquele sagrado tálamo onde permanecera nove
meses.
Este movimento do Menino não produziu dores à Virgem Mãe, como acontece às
demais filhas de Adão e Eva em seus partos (Gn 3,16). Pelo contrário, transportou-a de
júbilo incomparável, causando em sua alma e virginal corpo efeitos tão divinos e elevados
que ultrapassam a todo pensamento criado.
Corporalmente, tornou-se tão espiritualizada, formosa e refulgente que não parecia
criatura humana e terrena. O rosto desprendia raios de luz como belíssimo e rosado sol; sua
expressão era grave, de admirável majestade e inflamado de ardente amor.
Estava ajoelhada na manjedoura, os olhos elevados para o céu, as mãos juntas sobre .o
peito, o espírito absorto na divindade, toda deifícada. Nesta posição, no termo de seu êxtase, e
a eminentíssima Senhora deu ao mundo o Unigênito do Pai (Lc 2,7) e seu, nosso Salvador
Jesus, Deus e homem verdadeiro.
Era a meia-noite de um domingo, no ano 5.199 desde a criação do mundo, como
ensina a Igreja romana. Este cômputo é certo e verdadeiro, conforme me foi declarado.
476. Outras circunstâncias e particularidades deste diviníssimo parto, todos os fiéis
podem supô-las miraculosas. Como não tiveram outras testemunhas além da Rainha do
céu e dos anjos, não se podem conhecer todas em particular, salvo as que Deus mesmo
revelou à sua Igreja em comum, ou a determinadas pessoas, por diversos modos.
Estas revelações diferem um pouco entre si.
O assunto é altíssimo e em tudo venerável. Por isto, expus aos superiores que me
governam o que conheci sobre estes mistérios para os escrever. Ordenou-me, então, a


obediência que os consultasse novamente na divina luz, e pedisse à Imperatriz do céu, minha
mãe e mestra, e aos santos anjos que me assistem, esclarecessem algumas dúvidas que me
ocorreram, sobre pormenores que convinham ser explicados, para mais clara exposição do
parto sacratíssimo de Maria, Mãe de Jesus, nosso Redentor.
Tendo eu essa ordem, foi-me declarado que o nascimento sucedeu na forma seguinte:
Pormenores do nascimento de Cristo
477. Ao terminar o rapto e visão beatífica da Mãe sempre Virgem, que descrevi, d'Ela
nasceu o sol de justiça, o Filho do eterno Pai e seu, limpo, belíssimo, refulgente e puro,
deixando sua pureza e virginal integridade mais divinizada e consagrada. Não dividiu, mas
atravessou o virginal claustro, como os raios do sol que, sem quebrar a vidraça de cristal,
penetra-a e deixa-a mais bela e luminosa.
Antes de explicar o modo miraculoso como isto se deu, digo que o Menino Deus
nasceu só e puro, sem aquela membrana chamada secundina e na qual comumente nascem
enredados as outras crianças, tendo estado envolvidos nela no seio materno.
Não me detenho em declarara causa donde pôde originar-se o erro de se dizer o
contrário.
Basta saber e supor que na geração do Verbo humanado, e em seu nascimento, o poder
do Altíssimo tomou da natureza só aquilo que pertencia à realidade e essência da geração
humana, para que o Verbo feito homem verdadeiro, verdadeiramente fosse concebido, gerado
e nascido como filho da substância de sua Mãe sempre Virgem.
As demais condições que não são essenciais, mas tão somente acidentais à geração e
nascimento, e são conseqüências da culpa original ou atual, devem ser afastadas de Cristo
nosso Senhor e de sua Mãe santíssima. Outras muitas particularidades que não atingem à
substância da geração e nascimento, e mesmo quanto à natureza, contêm alguma impureza
e superfluidade, não eram necessárias para que a Rainha do céu fosse verdadeira Mãe, e
Cristo, Senhor nosso, filho seu, d'Ela nascido.
Aqueles efeitos, quer do pecado, quer da natureza, não eram necessários para a realidade
da Humanidade santíssima e de seu oficio de Redentor e Mestre. O que não foi necessário
para estes fins não se deve atribuir a Cristo e à sua Mãe santíssima, considerando-se ainda
que esta falta redunda na maior excelência de ambos.
Os milagres que para isso teriam sido necessários não devem ser regateados ao
Autor da natureza e da graça, e à sua digna Mãe, preparada, adornada e sempre favorecida
e aformoseada.
Em todos os tempos a divina destra a enriqueceu de graças e dons, e seu poder nela
operou tudo quanto foi possível uma pura criatura receber.


A virginal integridade de Maria


478. Conforme a esta verdade, não ficava derrogada a qualidade de verdadeira mãe, o
ser virgem ao conceber por obra do Espírito Santo e o dar à luz permanecendo sempre
virgem. Ainda que sem culpa, poderia ter perdido este privilégio da natureza, ficaria
faltando à divina Mãe esta tão rara e singular excelência que o poder de seu Filho lhe quis
outorgar.
Também pudera nascer o Menino Deus com aquela túnica ou membrana dos demais.


Mas como isto não era necessário para nascer filho de sua verdadeira Mãe, não quis extraí-
la do seio virginal e materno.
Este parto não esteve também sujeito a outras condições de menos pureza que
atingem os demais, no modo comum de nascer.
Não era justo que o Verbo humanado passasse pelas leis comuns dos filhos de Adão. Já
que nasceu milagrosamente, era coerente que fosse privilegiado e livre de tudo o que
pudesse ser matéria de corrupção e menos pureza.
Aquela túnica secundina não deveria se corromper por ter estado em contato direto
com seu corpo santíssimo, e por ser parte do sangue e substâncias materna. Guardá-la ou
conservá-la não era conveniente, nem o era receber os privilégios dos dotes da glória para
sair do corpo da Mãe, do mesmo modo que saiu o corpo de seu Filho santíssimo, como logo
direi.
O milagre que seria preciso para conservar esta membrana sagrada fora do seio da
Mãe, foi melhor operado permanecendo nele.


O corpo glorioso do Menino Deus


479. Nasceu, pois, o Menino Deus do tálamo virginal, só, sem qualquer outra coisa
material e corporal, glorioso e transfigurado. A sabedoria infinita ordenou que a glória da
alma santíssima se comunicasse ao corpo do Menino Deus no momento de nascer,
participando dos dotes da glória, como aconteceu mais tarde no Tabor (Mt 17, 2) na
presença dos três apóstolos.
Não teria sido necessário este prodígio para atravessar o claustro materno deixando-o
ileso em sua virginal integridade. Sem estes dotes, poderia Deus fazer outros milagres para o
Menino nascer deixando virgem a Mãe. Assim o dizem os santos que não conheceram outro
mistério.
Foi vontade divina, porém, que a beatíssima Mãe visse, pela primeira vez, a seu
Filho homem-Deus, com o corpo glorioso, para dois fins: primeiro, para que a visão daquele
objeto divino despertasse na prudente Mãe a altíssima reverência com que devia tratar seu
filho, Deus e Homem verdadeiro. Não obstante, já ter sido instruída nisso, ordenou o Senhor
que, por esse meio sensível, lhe fosse infundida nova graça correspondente à experiência
que recebia da divina excelência, majestade e grandeza de seu dulcíssimo Filho.
A segunda finalidade dessa maravilha, foi para recompensar a fidelidade e santidade da
divina Mãe. Seus puríssimos e castíssimos olhos, por amor de seu Filho santíssimo, se
haviam fechado para tudo o que era terrestre. Mereciam vê-lo, logo ao nascer, com tanta
glória, recebendo aquele gozo e prêmio de sua lealdade e delicadeza.


Primeiro colóquio entre Filho e Mãe


480. O sagrado Evangelista São Lucas diz (Lc 2,7) que a Virgem Mãe havendo dado a luz a
seu filho primogênito, envolveu-o em panos e o reclinou num presépio.
Não declara quem o colocou em suas mãos, porque isto não pertencia a seu intento.
Foram ministros deste gesto os dois príncipes soberanos São Miguel e São Gabriel.
Assistindo ao mistério em forma corpórea, no momento em que o Verbo humanado
transpôs o claustro materno e veio à luz, em devida distância, o receberam em suas mãos
com incomparável reverência. Em seguida, no modo como o sacerdote mostra ao povo a
sagrada hóstia para que a adore, os dois celestiais ministros apresentaram aos olhos da divina


Mãe o seu Filho glorioso e refulgente.
Tudo se passou em breves instantes. No momento em que os santos Anjos
apresentaram o Menino Deus à sua Mãe, olharam-se Filho e Mãe, ferindo Ela o coração do
doce Menino, e ficando ao mesmo tempo transformada n'Ele.
Das mãos dos santos Anjos, disse o Príncipe celestial à sua feliz Mãe: Mãe,
assemelha-te a Mim. Pelo ser humano que me deste quero, desde hoje, dar-te outro ser de
graça mais elevado que, sendo de pura criatura, assemelhe-se, por imitação perfeita, ao
meu que sou Deus e homem.
Respondeu a prudentíssima Mãe: Atrai-me após ti, e correremos ao odor de teus
perfumes (Cant 1,3). Aqui se cumpriram muitos dos ocultos mistérios dos Cânticos. Entre
o Menino Deus e sua Virgem Mãe se passaram muitos dos divinos diálogos ali referidos,
como: Meu amado é para mim, eu sou para ele, e ele se volta para mim. Oh! Como és
formosa, minha amiga, teus olhos são como os da pomba! Oh! Como és belo meu dileto!
(Cant 2, 16; 7,10; 1,14-15).
Outros muitos sacramentos então se realizaram, mas para referi-los seria necessário
alongar este capitulo mais do que é preciso.


Diálogo com o Eterno Pai


481. Ao mesmo tempo que ouviu as palavras de seu Filho diletíssimo, foram à Maria
santíssima revelados os atos interiores da alma santíssima unida à divindade, para que
imitando-os se assemelhasse a Ele.
Esta graça foi a maior que a fidelíssima e ditosa Mãe recebeu de seu Filho, homem e
Deus verdadeiro. Não só por ter sido contínua, durante toda a vida dele, mas também porque
foi o modelo vivo por onde Ela copiou a sua, com a maior semelhança possível entre uma
pura criatura e Cristo, homem e Deus verdadeiro.
Sentiu a divina Senhora a presença da Santíssima Trindade, e ouviu a voz do Eterno
Pai, dizendo: Este é meu Filho amado de quem recebo grande agrado e complacência (Mt
17» 5).
A prudentíssima Mãe, toda divinizada entre tão sublimes sacramentos, respondeu:
Eterno Pai e Deus Altíssimo, Senhor e Criador do universo, dai-me novamente vossa
bênção e permissão, para com ela receber em meus braços o desejado das nações (Ag 2,
8); e ensinai-me a cumprir vossa divina vontade no ministério de mãe, ainda que indigna, e
de escrava fiel.
Ouviu uma voz que lhe dizia: Recebe a teu unigênito Filho, imita-o, cría-o e lembra
que mo hás de sacrificar quando Eu te pedir. Alimenta-o como mãe e venera-o como a teu
verdadeiro Deus.
Respondeu a divina Mãe: Aqui está a obra de vossas divinas mãos; adornai-me com
vossa divina graça para que vosso Filho e meu Deus me aceite por sua escrava. Dai-me a
suficiência de vosso grande poder a fim de que Eu acerte em seu serviço. Não seja ousadia
que a humilde criatura tenha em suas mãos e alimente com seu leite a seu próprio Senhor e
Criador.


Oração de Maria


482. Terminados estes colóquios tão cheios de divinos mistérios, o Menino Deus
interrompeu o milagre, ou voltou a continuar aquele que suspendia os dotes da glória de seu
corpo santíssimo, ficando represados só na alma, e se mostrou sem eles, em seu ser natural


e passível.
Sua Mãe puríssima, com profunda humildade e reverência o adorou, na posição de joelhos
como estava, e o recebeu das mãos dos santos anjos. Tendo-o nas suas lhe disse:
Dulcíssimo amor meu, luz de meus olhos e vida de minha alma; sede benvindo ao mundo,
sol de justiça (Mal 4,2), para desterrar as trevas do pecado e da morte. Deus verdadeiro de
Deus verdadeiro, redimi a vossos servos e toda a carne veja quem lhe traz a salvação (Is 9,
2; SI 33, 23; Is 40, 5; 52, 10), Recebei vossa escrava para vosso obséquio e supri minha
insuficiência para vos servir. Fazei-me, Filho meu, tal como quereis que eu seja para vós.
Em seguida, ofereceu a prudentíssima Mãe seu Unigênito ao Eterno Pai, dizendo:
Altíssimo Criador de todo o universo, aqui está o altar e o sacrifício aceitável a vossos olhos
(Mal 3, 4). Desde agora, Senhor meu, olhai a raça humana com misericórdia, e quando
merecermos vossa indignação, aplacai-vos com vosso Filho e meu. Descanse a justiça e
exalte-se vossa misericórdia, pois para tanto vestiu o Verbo divino a semelhança da carne do
pecado (Rom 8,3), e se fez irmão dos mortais (Filp 2,7) e pecadores.
Por este título reconheço-os por meus filhos, e do fundo do coração vos peço por
eles. Vós, Senhor poderoso, me fizestes, sem o merecer, Mãe do vosso Unigênito, pois esta
dignidade ultrapassa todos os merecimentos das criaturas. De certo modo, porém, devo
aos homens a causa de minha incomparável felicidade, pois é para eles que sou Mãe do
Verbo humanado passível e Redentor de todos. Não lhes recusarei meu amor, cuidado e
solicitude por sua salvação. Recebei, eterno Deus, meus desejos e súplicas para o que é de
vosso mesmo agrado e vontade.


Convite de Maria aos homens


483. Dirigiu-se também a Mãe de misericórdia a todos os mortais, dizendo-lhes:
Consolem-se os aflitos, alegrem-se os tristes, ergam-se os caídos, tranqüilizem-se os
angustiados, ressuscitem os mortos, gozem os justos, alegrem-se os santos, recebam novo
júbilo os espíritos celestiais, confortem-se os Profetas e Patriarcas do Limbo e todas as
gerações louvem e exaltem ao Senhor que renovou suas maravilhas.
Vinde, vinde, pobres, chegai sem temor, pequenos, pois em minhas mãos está
transformado em manso cordeiro
Aquele que é chamado leão; o poderoso -fraco; e o invencível - entregue. Vinde à vida,
aproximai-vos da salvação e do repouso eterno, que para todos o tenho, ser-vos-á dado
gratuitamente e sem ciúmes. Não sejais duros e insensíveis de coração, filhos dos homens! E
vós, doce bem de minha alma, permite-me receber de vós aquele ósculo desejado por
todas as criaturas. - Com isto a felicíssima Mãe aplicou seus divinos e castíssimos lábios ao
Menino Deus que, como seu Filho verdadeiro, esperava essas ternas e amorosas carícias.


Adoração e cântico dos anjos


484. Seus braços serviram de altar e sacrário onde os dez mil anjos, em forma humana,
adoraram seu Criador feito homem. Como a Santíssima Trindade assistia por especial modo
ao nascimento do Verbo encarnado, ficou o céu como que deserto de seus moradores. Toda
aquela corte invisível transladou-se à feliz gruta de Belém, e também adorou (Filip 2, 7) a
seu Criador vestido de novo e peregrino traje.
Em seu louvor entoaram os anjos aquele novo cântico: Glória a Deus nas alturas, e
paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2, 14). Com doce e sonora harmonia o
repetiam, admirados com a realização de tantos prodígios e com a indizível prudência,


graça, humildade e beleza de uma tenra jovem de quinze anos, depositária e digna ministra
de tais e tantos sacramentos.


Adoração de São José


485. Já era tempo que a prudentíssima e advertida Senhora chamasse a seu fidelíssimo
esposo São José. Como acima disse, encontrava-se em divino êxtase, onde conheceu, por
revelação, todos os mistérios do sagrado parto naquela noite celebrados.
Convinha, todavia, que também com os sentidos corporais visse, tratasse, adorasse
e reverenciasse o Verbo humanado, antes que qualquer outro mortal. Entre todos, ele era
o único escolhido para fiel despenseiro de tão alto sacramento.
Mediante vontade de sua divina Esposa, voltou do êxtase, e restituído a seus sentidos,
foi o primeiro que viu o Menino Deus nos braços de sua Virgem Mãe, reclinado em seu
sagrado regaço.
Ali o adorou com lágrimas e profundíssima humildade. Beijou-lhe os pés com tal gozo
e admiração que teria perdido ávida, se a virtude Divina não a conservara. Perderia também os
sentidos, se naquela ocasião não fora necessário usar deles.
Depois que São José adorou o Menino, a prudentíssima Mãe pediu licença a seu Filho
para se assentar, pois até aquele momento estivera de joelhos. Dando-lhe São José as faixas e
panos que trouxeram, envolveu-o (Lc 2,7) com a incomparável reverência, devoção e alinho.
Assim envolto em panos e faixas, com divina sabedoria a Mãe o deitou no presépio,
como diz o Evangelista São Lucas (2,7). Sobre uma pedra arrumou algumas palhas e capim,
para acomodar o Deus homem no primeiro leito que Ele teve na terra, fora dos braços de
sua Mãe.
Por vontade Divina, acorreu logo, daqueles campos, um boi que entrou no estábulo e
se reuniu ao jumentinho que a Rainha havia trazido. Ela lhes ordenou que, no modo que
pudessem, com reverência reconhecessem e adorassem a seu Criador. Obedeceram os
humildes animais, prostraram-se diante do Menino e com seu bafejar deram-lhe o calor e
obséquio que os homens lhe recusaram.
Deste modo, Deus feito homem foi visto envolto em panos, reclinado num
presépio entre dois animais. Cumpriu-se milagrosamente a profecia (Is 1, 3) que o boi
conheceu seu dono, e o jumento o presépio de seu senhor, Israel, porém não o conheceu,
nem seu povo teve inteligência.


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sábado, 13 de agosto de 2011

Matrimônio de São José com Maria Santíssima


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MÍSTICA CIDADE DE DEUS – PRIMEIRO TOMO – SEGUNDO LIVRO
CAPÍTULO 22
CELEBRAÇÃO DO DESPOSÓRIO DE MARIA SANTÍSSIMA COM O SANTO E CASTÍSSIMO JOSÉ
Reunião dos jovens no templo

                         Chegou o dia marcado, em que nossa Princesa completava catorze anos de idade, como dissemos no capitulo precedente. Reuniram-se os jovens des­cendentes da tribo de Judá e linhagem de David, de quem descendia a soberana Se­nhora, que nessa ocasião se encontravam na cidade de Jerusalém. Pertencendo à família real de David, também foi chamado José, natural de Nazaré e residente na cida­de santa. Tinha então trinta e três anos de idade, de talhe distinto e agradável sem­blante, onde se-espelhava incomparável modéstia e gravidade. Acima de tudo, era castíssimo no proceder e pensamentos, de inclinações santíssimas; fizera, desde os doze anos, voto de castidade. Era primo em terceiro grau da Virgem Maria, de vida puríssima e irrepreensível aos olhos de Deus e dos homens.
Súplicas a Deus a manifestação de sua vontade

Reunidos estes homens no templo, juntamente com os sacerdotes, fizeram oração ao Senhor pedindo que fossem guiados por seu divino Espírito, no que iam realizar. Falou o Altíssimo interior­mente ao sumo sacerdote, inspirando-lhe dar uma vara seca a cada um dos jovens ali reunidos e pedirem, com viva fé, à Sua Majestade, declarar por aquele meio, quem seria o escolhido para esposo de Maria.
O perfume das virtudes da Vir­gem, a fama de sua formosura, bens e família, o fato por todos conhecido de ser primogénita e único membro da família, levava todos eles a cobiçar a sorte de a merecer por esposa.
Somente o humilde e retíssimo José, entre os presentes, se reputava in­digno de tanto bem. Lembrando-se do voto de castidade que fizera, propondo de novo sua perpétua observância, entregou-se à divina vontade, para o que dele quisesse fazer. Apesar disso, sentiu pela hones­tíssima donzela, Maria, maior veneração e apreço do que qualquer um dos outros.
José foi o indicado para esposo de Maria

Estando todos nesta oração, floresceu somente a vara de losé e, ao mesmo tempo, desceu alvíssima pomba, cheia de admirável resplendor, pousando-lhe acima da cabeça. Ao mesmo tempo, falou-lhe Deus interiormente,dizendo-lhe: José, meu servo, tua esposa será Maria, recebe-a com reverência e cuidado, porque a meus olhos é aceita, justa e puríssima de alma e corpo, e farás tudo o que Ela te disser.
Com a revelação e sinal do céu, os sacerdotes declararam São José, escolhi­do pelo próprio Deus, para esposo da donzela Maria. Chamada para o desposório, apresentou-se a eleita como o sol, mais formosa que a lua (Ct 6, 9). Apareceu na presença de todos, com semblante mais que angélico, de incomparável beleza, modéstia e graça, e os sacerdotes desposaram-na com o mais casto e santo dos homens, José.
Saudosa e séria, a divina Princesa, mais pura do que as estrelas do firmamento e rainha de majestade humilíssima, despediu-se dos sacerdotes, pedindo-lhes a bênção. Outro tanto fez com a mestra e condiscípulas, pedindo-lhes perdão e agradecendo-lhes todos os bene­fícios que, por elas, recebera no templo.
Procedeu com grande humildade e mui breves e prudentes palavras porque, em todas as ocasiões, proferia poucas e muito ponderadas. Despediu-se do tem­plo, não sem grande sentimento, por ter que o deixar, contra a própria inclinação e desejo. Acompanharam-na alguns dos principais ministros leigos do templo, que ali serviam nas coisas temporais. Com o esposo José, dirigiram-se para Nazaré, ci­dade natural dos felicíssimos esposos.
Não obstante ter José nascido em Nazaré, dispôs o Altíssimo, por meio de alguns sucessos de fortuna, fosse viver algum tempo em Jerusalém, para ali a me­lhorar tão ditosamente, que se tornou esposo Daquela que Deus escolhera para Mãe.
Em Nazaré, Maria e José recebem visitas de felicitações
Chegando a Nazaré, onde a princesa do céu tinha a casa e os bens de seus felizes pais, foram recebidos e visitados pelos amigos e parentes, com a alegria e cumprimentos que em tais ocasiões se costumam. Tendo santamente cumprido com o natural dever de urbanidade e satisfeito estas obrigações sociais de convívio humano, ficaram sossegados Jose e Maria em sua casa.
Era costume entre os hebreus que, durante os primeiros dias de matrimônio, os esposos fizessem mútuo exame e experiência dos costumes e índole de cada qual, para melhor reciprocamente se adaptarem.
São José procura conhecer as intenções e desejos de Maria Santíssima
Disse São José à sua esposa Maria: - Esposa e Senhora minha, dou graças ao Altíssimo pela mercê de me haver escolhido, sem méritos, para vosso espo­so, quando me julgava indigno de vossa companhia. Mas, já que Sua Majestade quer exaltar o pobre e fez esta misericórdia para comigo, desejo me ajudeis, como es­pero de vossa discrição e virtude, a lhe dar a devida retribuição, servindo o Senhor com sincero coração. Para isto, considerai-me vosso servo, com o verdadeiro afeto com que vos estimo. Peço-vos queirais suprir o muito que me falta de bens mate­riais e outros predicados, que se exigiriam para ser esposo vosso. Dizei-me, Senhora, qual é vossa vontade para eu cumpri-la.
Resposta da Virgem. Presença de seus anjos
Ouvindo estas razões a divi­na Esposa, com humilde coração e aprazível seriedade no semblante, respondeu ao Santo: - Sinto-me feliz, senhor meu, que o Altíssimo, ao colocar-me neste estado de vida, vos escolhesse para meu esposo e senhor, e que servir-vos fosse a expressão de sua divina vontade. Se, porém, me permitirdes, manifestarei minhas intenções e pensamentos.
Preveniu o Altíssimo, com sua graça, o sincero e leal coração de São José. Por meio das Palavras de Maria  Santíssima, novamente o inflamou no divino amor.
Respondeu São José: - Falai, Senhora, que vosso servo ouve.
Assistiam, nesta ocasião, à Se­nhora do mundo, seus mil anjos da guarda em forma visível, conforme Ela lhes pedira. A razão deste pedido foi permitir o Altíssimo que a puríssima Virgem se sentisse tomada de respeito e recato para falar com seu esposo, e assim agir em tudo com maior graça e mérito. Deixou-lhe a natural timidez, e receio que sempre tivera de falar a sós com um homem, o que nunca até aquele dia acontecera, a não ser, vez ou outra, com o sumo sacerdote.
Maria confia a São José seu voto de perpétua castidade

Obedeceram os santos an­jos a sua Rainha e lhe assistiram, vendo-os só Ela. Assim acompanhada, falou a São José: - Meu Senhor e esposo, é justo que, com toda a reverência, louvemos e glorifi­quemos nosso Deus e Criador, infinito na bondade, incompreensível em seus desíg­nios. Deus nos manifestou sua mise­ricórdia, escolhendo-nos a nós, pobres, para servi-lo.
Entre todas as criaturas, reconheço-me por mais devedora do que qualquer uma delas, ou do que todas juntas, porque, merecendo menos, recebi mais de sua mão liberalíssima. Em meus primeiros anos, compelida por esta verdade e pelo des­prendimento de todas as coisas visíveis que a divina luz me comunicou, consagrei-me a Deus com perpétuo voto de ser casta de alma e corpo. A Ele pertenço e o reconheço por Esposo e Senhor, com imutável vontade de lhe guardar fiel castidade
Para cumpri-lo, meu Senhor, que ro que me ajudeis e, no mais, serei vossa fiel serva, para cuidar de vossa vida, enquanto durar a minha. Concordai, meu esposo com esta determinação. Confirmando-a com a vossa, ofereçamo-nos em agradável sacrifício a nosso eterno Deus, para que nos receba em odor de suavi­dade, e possamos alcançar os bens eternos que esperamos.
Resposta de São José
Repleto de interior júbilo com as razões de sua divina esposa, o castíssimo José lhe respondeu:
 - Declarando-me, Senhora, vossos propósitos e castos pensamentos, penetrastes meu coração, que não quis abrir antes de co­nhecer o vosso. Reconheço-me também, entre os homens, pelo mais devedor ao Senhor de toda a criação, porque, muito cedo, me atraiu com sua verdadeira luz, para que o amasse na retidão de coração.
Quero saibais, Senhora, que, aos doze anos de idade, também fiz promessa de servir ao Altíssimo em castidade perpé­tua. Volto agora a ratificar meu voto, para não impedir o vosso, antes, na presença de Sua Alteza, prometo-vos ajudar, quanto estiver em minhas forças, para que, em toda pureza, O sirvais e ameis, conforme vosso desejo. Com a divina graça, serei vosso fidelíssimo servo e companheiro. Suplico-vos, aceiteis meu casto afeto e me consi­dereis vosso irmão, sem jamais admitir outro amor estranho, fora do que deveis a Deus e depois a mim.
Durante esta palestra, o Altíssimo confirmou novamente o coração de São José, na virtude da castidade e no amor santo e puro que deveria nutrir por sua santíssima esposa Maria. Assim o teve o Santo, em grau eminentíssimo, que a prudentíssima conversação da Senhora, contínua e docemente aumentava, arrebatando-lhe o coração.
Distribuem os bens herdados de SantAna e São Joaquim

                         Mediante a divina graça que Deus lhes infundia, sentíram os santíssimos e castíssimos esposos incomparável júbi­lo e consolação. A divina Princesa ofereceu-se a São José para corresponder a seus desejos, como Senhora das virtudes que, sem contradição, praticava em todas o mais elevado e excelente.
Comunicou o Altíssimo a São José nova pureza e domínio sobre a natu­reza e suas paixões, para que sem rebelião nem solicitação, mas com admirável e nova graça, servisse sua esposa Maria, e Nela, à vontade e beneplácito do Senhor.
Em seguida, distribuíram os bens herdados de São Joaquim e Sant'Ana, pais da Santíssima Senhora. Uma parte oferece­ram ao templo onde ela vivera, outra foi aplicada aos pobres e a terceira deixou ao cuidado de São José para administrá-la. Para si, nossa Rainha reservou somente o cuidado de servi-lo e trabalhar no interior de seu lar.
Do movimento externo, do uso do dinheiro para compras e vendas, sempre se eximiu a prudentíssima Virgem, como disse em outra parte.

SANTA VIDA DE SÃO JOSÉ


Sagrada Família
MÍSTICA CIDADE DE DEUS – TERCEIRO TOMO – QUINTO LIVRO

CAPÍTULO 16

PRIVILÉGIOS DE SÃO JOSÉ

Idade de Maria, ao morrer São José

886. São José, o mais feliz dos homens, viveu sessenta anos e alguns dias. Aos trinta e três desposou Maria santís­sima e em sua companhia viveu pouco mais de vinte e sete. Quando o Santo mor­reu, a grande Senhora contava quarenta e um anos e meio. Aos catorze desposou-se com São José, acrescentando-se os vin­te e sete que viveram juntos, somam qua­renta e um, mais o prazo que vai de 8 de setembro até a feliz morte do santo Esposo.
Nesta idade, continuava a Rainha do céu, na mesma perfeição natural que atingiu aos trinta e três anos. Não enve­lheceu, nem perdeu nada daquele per­feitíssimo estado que expliquei no capítulo 13 deste livro.
Experimentou, porém, natural sentimento pela morte de São José, pois o amava como esposo, como santo tão excelente na perfeição e como seu amparo e benfeitor. Esta dor da prudentíssima Senhora foi bem ordenada e perfeita, mas nem por isto foi pequena. Seu amor era grande, princi­palmente porque conhecia o grau de san­tidade de seu Esposo, colocado entre os maiores santos escritos no livro da vida e na mente do Altíssimo. Se, o que se ama não se perde sem dor, maior será a dor de se perder o que muito se ama.
As excelências de São José

887. Não pertence à finalidade desta História escrever, de propósito, as excelências da santidade de São José. Tampouco tenho ordem para isso a não ser de passagem, o quanto basta para mais re­alçar a dignidade de sua Esposa e nossa Rainha, a cujos merecimentos, depois dos de seu Filho santíssimo, devem-se atribuir os dons e graças concedidos pelo Altís­simo ao glorioso Patriarca.
Mesmo que a Senhora não tenha sido a causa meritória da santidade de seu Esposo, foi pelo menos o fim imediato para o qual essa santidade era ordenada. O cúmulo de virtudes e graças que o Se­nhor comunicou a São José, tinha a finali­dade de o tornar digno esposo e guarda daquela que ele escolhera por Mãe. Por esta regra e pelo amor e apreço que Deus teve por sua Mãe santíssima, deve-se medir a santidade de São José.Penso que, se no mundo existisse outro homem mais perfeito e de melhores qualidades, o Se­nhor tê-lo-ia dado por esposo à sua Mãe. Já que lhe deu o patriarca São José, é por­que, fora de qualquer dúvida, era o melhor que havia na terra.
Tendo-o criado e preparado para tão elevada missão, é certo que seu poder o tornaria idóneo e proporcionado a ela. Esta proporção, segundo entendemos na luz divina, deveria consistir nas virtudes, dons, graças e inclinações infusas e naturais.
São José milagre de santidade

888. Entre este grande Patriarca e os demais Santos, noto diferença a res­peito dos dons com que foram agraciados. A muitos Santos foram concedidos favores e privilégios que não visavam dire-tamente à sua santidade pessoal, mas lhes eram dados para outros fins a serviço do Altíssimo na pessoa do próximo. Eram dons ou graças grátis datas, remotas à san­tidade.
Em nosso abençoado Patriarca, porém, todos os dons visavam o cres­cimento de suas virtudes e santidade, pois o ministério para o qual se desti­navam era expressar sua santidade e suas obras. Sendo mais santo e angélico, era mais idóneo para esposo de Maria santíssima e depositário do tesouro e sacramento do céu. Devia ser um mila­gre de santidade, como realmente foi.
Este prodígio começou com a formação de seu corpo no ventre materno. Deus teve por ele particular providência, e foi composto com proporcionados humores, excelentes qualidades, compleição e temperamento. Foi terra abençoada que mereceu uma boa alma (Sab 8, 19) e retidão de inclinações.
Aos sete meses de sua concepção foi santificado no ventre de sua mãe. Foi­ lhe atado o fomes pecati para o resto da vida, e jamais sentiu movimento impuro ou desordenado. Nesta primeira santificação não lhe foi dado o uso da razão, mas só foi justificado do pecado original. Sua mãe, todavia, sentiu particular alegria do Espírito Santo, e mesmo sem entender todo o mistério, fez grandes atos de vir­tudes e julgou que seu filho seria ad­mirável aos olhos de Deus e dos homens
Nascimento e vida de São José até desposar Maria
O santo menino nasceu per­feitíssimo e muito belo, dando a seus pais extraordinária alegria, como a que houve ao nascer o Batista, embora o motivo daquela fosse mais oculto. Apressou-lhe o Senhor o uso da razão, dando-a perfeita aos três anos, dotada de ciência infusa e novo aumento de graça e virtudes. Desde esse momento começou o menino a co­nhecer a Deus, tanto pela fé como pela inteligência natural, como causa primeira e autor de todas as coisas. Compreendia perfeitamente tudo o que se dizia sobre Deus e suas obras, e desde aquela idade teve elevada oração, contemplação e ad­mirável exercício das virtudes, o quanto permitia sua idade infantil.
Aos sete anos, quando os outros chegam ao uso da razão, São José já era homem perfeito, nela e na santidade. Pos­suía temperamento manso, caritativo, afável, sincero e em tudo manifestava in­clinações, não apenas santas, mas angéli­cas. Crescendo em virtude e perfeição, levou vida irrepreensível até a idade em que desposou Mana santíssima.
A santidade de São José: por Maria e para Maria
Nesta ocasião, intervieram as súplicas da divina Senhora para o aumento e confirmação dos seus dons de graça. Ela pediu ao Altíssimo que, se Ele lhe orde­nava tomar estado de matrimónio, santi­ficasse José para que este sintonizasse com seus castíssimos pensamentos e de­sejos. A divina Rainha compreendeu que o Senhor a atendia, e com seu poder agia copiosamente sobre o espírito e potências de Sâo José. Infundiu-lhe perfeitíssimos hábitos de todas as virtudes e dons, cujos efeitos não se podem traduzirem palavras
Retificou novamente suas potên­cias, encheu-o de graça, confirmando-a nela por admirável modo. Na virtude e dom da castidade, ficou o santo mais ele­vado do que o supremo serafim, porque a pureza que eles possuem sem corpo, foi concedida a São José, em corpo terreno e carne mortal. Jamais entrou em suas potências imagens nem espécie de coisa impura da natureza animal e sensível.
Com esta abstração e com uma sin­ceridade columbina e angélica, ficou em condições de permanecer na presença e companhia da puríssima entre todas as criaturas. Sem tal privilégio, não seria idóneo para tão grande dignidade e rara excelência.
A caridade de São José

891. Nas demais virtudes foi ad­mirável, e especialmente na caridade, pois se encontrava na fonte onde podia saciar-se daquela água que jorra para a vida etema (Jo 4, 14), e junto ao fogo, como matéria propícia, para nele se inflamar sem resistência.
O maior encarecimento desta vir­tude do amante Esposo, foi o que disse no capítulo passado , o amor de Deus foi a enfermidade e o instrumento que lhe cor­tou o fio da vida e o fez privilegiado na morte. As doces ânsias do amor ultrapas­saram e como que absorveram as da na­tureza que agiram menos que aquelas. Tinha presente ao objeto do amor, Cristo Senhor nosso e sua Mãe, que lhe perten­ciam mais do que qualquer outra criatura os pôde possuir. Era inevitável que aquele fiel e puríssimo coração se dissolvesse nos afetos e efeitos de tão peregrina caridade.
Bendito seja o Autor de tantos prodígios e bendito seja o mais feliz dos mortais, José que os recebeu. E digno de que todas as gerações e povos o conheçam e bendigam, pois com nenhum outro fez tais coisas o Senhor, nem manifestou tanto o seu amor.
Privilégios de São José

892. Das visões e revelações divi­nas com as quais foi favorecido São José, disse alguma coisa no decurso desta História  e muito mais se poderia dizer. O principal, porém, fica subentendido pelo fato do Santo ter conhecido os mistérios de Cristo Senhor nosso e de sua Mãe santíssima; de ter vivido na compa­nhia de ambos tantos anos, como ver­dadeiro Esposo da Rainha e considerado pai do mesmo Senhor.
Tenho entendido que, por sua grande san­tidade, concedeu-lhe o Altíssimo certos privilégios em favor dos que. nas devidas condições, invocarem sua intercessão.

Primeiro: alcançar a virtude da castidade e vencer os perigos da sensuali­dade carnal
Segundo: obter grandes auxílios para sair do pecado e voltar à amizade de Deus.
Terceiro: alcançar por seu inter­médio, devoção a Maria santíssima.
Quarto: ter uma boa morte e pro­teção contra os demónios naquela hora.
Quinto: privilégio do nome São José para afugentar os demónios.
Sexto: alcançar saúde corporal e auxílio noutros sofrimentos.
Sétimo: para os casais terem filhos.
Estes, e outros muitos favores, são concedidos por Deus àqueles que, como convém, lhos pedem pela intercessão de São José. De minha parte, peço a todos os fiéis da santa Igreja que lhe tenham grande devoção, e farão a experiência, se se dis­puserem como é preciso, para merecer al­cançar seus favores.
DOUTRINA QUE ME DEU A RAINHA DO CÉU MARIA SANTÍSSIMA.
Excelência de São José

893. Minha filha, escreveste que meu esposo São José é nobilíssimo entre os santos e príncipes da celestial Jeru­salém. Não obstante, agora não podes manifestar completamente sua eminente santidade, nem os mortais são capazes de a conhecer, antes de chegarem à visão da Divindade. Ali, na admiração e louvor de Deus, poderão compreendê-la. No dia do juízo final, quando todos os homens forem julgados, os infelizes condenados chorarão amargamente por não terem, por causa de seus pecados, conhecido e aproveitado este meio tão poderoso e efi­caz, para adquirir a amizade do justo Juiz e a salvação. Os mundanos têm se desin­teressado muito pelos privilégios e prer­rogativas que o Altíssimo Senhor con­cedeu a meu santo esposo, e de quanto pode sua intercessão junto ao Senhor e a mim. Asseguro-te, caríssima, que na pre­sença da divina justiça, é um dos grandes validos para apaziguá-la a favor dos pecadores.
Devoção a São José

894. Por esta notícia e luz que re­cebeste, quero que sejas muito agradecida ao Senhor, assim como ao favor que nisto te faço.
De agora em diante, no que te res­ta de vida, procura progredir na devoção e cordial afeto por meu santo Esposo. Bendize ao Senhor por se ter mostrado tão liberal com ele, e pelo gozo que eu senti em conhecer sua santidade. Em todas tuas necessidades recorre à sua intercessão, in­centiva sua devoção, e que tuas religiosas se distinguam muito nela. O que meu Esposo pede no céu, concede o Altíssimo na terra, e a suas petições tem vinculado grandes e extraordinárias graças para os homens, se não se fazem indignos de as receber. Estes privilégios correspondem à perfeição columbina e grandiosas vir­tudes deste admirável Santo. A divina clemência inclinou-se para elas e o olhou liberalissimamente para conceder ad­miráveis misericórdias para ele e para os que se valerem de sua intercessão.